DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES

O que me distingue de um revolucionário, é que este quer mudar o mundo. eu não quero mudar rigorosamente nada, apenas registar a iniquidade humana.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Sessão de apresentação de texturas diversas


ASSIM FALA JOAQUIM CASTANHO

."Na serena sabedoria dos avós se encerra a chave do futuro" – página 126 Escorrendo generosidade e e alentejaníssimo sentir, chegou-me recentemente às mãos um livro (Coleção Palavras Soltas, da CHIADO EDITORA, Lisboa, 142 páginas), que, não obstante a frugalidade no tamanho é de recheada compleição semântica, com autoria do meu amigo JAIME CRESPO, intitulado TEXTURAS DIVERSAS. Conjunto de palimpsestos em trânsito, uns na direção conveniente, ainda que em contramão, outros no sentido imprevisto, mas na faixa da oportunidade, além dessoutros que trazem colados a si – nas entrelinhas da intertextualidade –, embora que já expeditos, emancipados e desmelindrados, as parras (folhas) impressas das quais rejuvenesceram, porquanto se podem discernir como pinceladas impressionistas de recordação sobre a lona esmaecida da grande tela do tempo; alguns vêm do passado (mais ou menos remoto) fitando o futuro, apenas fazendo escala na atualidade para ganhar balanço, e outros, partem do presente enviesando prò passado, recapitulando-o aqui e ali, quais atalhos de cogitação congeminadora de observatórios naturais, cujo traço intimista, subjetivo, cimentado nas matizes que só a memória reconhece como plausíveis, emprestam ao estilo conciso mas abrangente, a tenacidade de um esquecimento adiado, interrompido, alicerçado no querer que se ancorou na coisa literária diversa e multifacetada dos retalhos avulso unidos por uma visão do mundo – a do autor –, quais iguarias no rescaldo da matança da rês (e da rés) para petiscar acompanhadas com um tintol de estalo, safra caraterística de Portalegre, terra de lagóias, extraído do fruto vindimado nas "abençoadas margens de Baco". Quando nos conhecemos, a cidade era não mais que uma charneca pejada de tascas, cafés, pequenos comércios, bancos e esplanadas, arrecadando em algumas montras os livros que iríamos ler, com ruas e largos a espreguiçarem-se ao vaivém das mais lindas cachopas que foi dado à criação conceber, rica em retouças e mistérios. E, quanto aos mistérios… Bem, esses faço fé de que eram já os mesmos que hoje encerra, pese embora fechados a sete chaves. À chave do conhecimento usámo-la com humildade, empenho e honestidade; à da magia, rodámo-la com copioso e encantado arrebatamento; à da amizade, usufruímo-la com partilha, temperança e desportivismo; à da estética empunhámo-la com irreverência crítica, cagança e ousadia; a da moral abrimo-la prà diversidade, tolerância, respeito e dignidade; a da civilidade manobrámo-la com compromisso político, cidadania, arregougos acráticos e pruridos revolucionários; mas a da liberdade gastámo-la de tanto uso com música, fantasia, boémia e poesia. Quanto à sensatez, por já estar fora da pauta, reservámo-la para usufruir na velhice – o que, está óbvio, ainda se avizinha distante, pelo que se alguém está à espera dela para nos chamar a atenção por qualquer desmando, faça-o em fila de espera, mas leve para o efeito uma cadeirinha de bunho, a fim de o fazer sentado/a, caso contrário sujeita-se a contrair moléstia de agravo consentânea com a demora –, e, à do destino, devolvemo-la à procedência, isto é, à natureza, ao oculto e ao acaso, que são quem o tutela e de onde nunca devia ter saído. Coleção encadernada, escorreita e de leitura fácil de fragmentos literários que subentendem ser pertença de enredos maiores, dão à tona nestas páginas para nos possibilitar uma viagem circunspeta pela portugalidade perene e viável, essa mesma que a língua portuguesa anteriormente encetara, indo do Minho à China, passando também pelo Japão, Índia e Timor, no porão de uma paráfrase de insofismável laicismo. É uma obra desenxovalhada e que merece a atenção de todos e todas que andem nestas lides de querer saber quem afinal somos exatamente, além dos razoáveis porquês por termos ido ainda além da Taprobana.
Joaquim Maria Castanho, escritor

Acerca de TEXTURAS DIVERSAS

A modo de posfácio que é maneira de visitar Macau nos espaços realistas do autor que pintor com palavras nos leva a recordar sítios e modos de viver. Seguimos pela odisseia pessoal e política peregrina da liberdade que chega aos limites e abandona uma certa poligrafia de consciências resta a solidariedade. Visitação dos quotidianos em salpicos de cinematografia em fotomaton e deambulação literária por autores nesta abobadada terra portuguesa. Tema genérico é a literatura apologista duma ars magna hedonista que o próprio autor vai revelando pelas odoríferas ruas do Oriente e nos impressiona num repentino surgimento de poemas reveladores duma natureza de sensibilidade poética. Em finalização da obra temos os 10 cantos do Oriente com assinatura portuguesa em quadros sucessivos de grande cromatismo e «onde os pássaros dentro da gaiola são levados a passear e cantam». Resta-nos referenciar a «pátria dos poetas a pátria da liberdade», liberdade omnívora de infinitas essencialidades que já nos segreda no princípio de Heisenberg e esvoaça por todas as coisas em caleidoscópio dos nossos momentos última ratio do espírito e da acção suprema motivação da esperança. Queluz, 27 de Outubro 2017,
Dr. F. Barata Freitas, médico neurologista, fotógrafo e pintor; autor de “Solstícios”; Miguel d’Anunciada, Edições Colibri, Queluz, junho de 2012

Adoro a sua maneira de escrever

Já recebi o seu livro. Obrigada. Adoro a sua maneira linda de expor as suas ideias literárias. Continue porque precisamos de grandes autores como o Sr. Beijinhos e seja muito feliz em todos os parâmetros da sua vida." Mariposa Santos

Oração do 10 de junho, dia da raça, pelo escriba da nação


Portuguesas e portugueses:



Muito obrigado José Cruz, pelo menos uma vez na vida foste brando para com o criminoso.

Boa tarde a todos e muito obrigado pela gentileza da vossa presença.

Heliogábalo, imperador romano entre 218 e 222 d.C., nunca quis tal cargo, foi empurrado para ele apenas com 14 anos, pela sua avó, diz-se que quando entrou na sua quadriga, em Roma, para ser aclamado imperador, o terá feito de costas, uma vez que era homossexual, ele entrava assim, não para possuir a cidade, mas para que a cidade o possuísse a ele.

Eu estou de frente, mas também não quero possuir ninguém, apenas, se puder ganhar alguns leitores.

Vou iniciar com uma citação, as citações são como organizadores morais do pensamento, esta de alguma maneira resume uma parte do meu pensamento e encontrei-a, deslumbrado, há dias ao folhear um velho livro. Estava ali. Está aqui:



“Mas a linha que separa o bem do mal atravessa o coração de todas as pessoas… Essa linha é móvel, oscila dentro de nós com o passar dos anos. Mesmo num coração dominado pelo mal, ela deixa sempre um pequeno espaço do bem. E mesmo no coração mais generoso há um inextirpável cantinho de mal”

Aleksandr Soljenítsin



Sou do tempo do “Chico Fininho” e não padecendo dos seus males, nem partilhando de alguns dos seus interesses, ainda vou pelas ruas ao som do Lou Reed.

Do falecido Lou Reed.

A vida é assim, num dia somos jovens, no seguinte enterramos familiares, amigos e ídolos.

Não podia iniciar esta alocução sem relembrar aqui a memória de meu pai Fernando, infelizmente já falecido. Sempre acreditou, vá lá saber-se porquê que um dia eu faria algo de extraordinário, ilusões de pais. Bem pai, tens que esperar porque este livro é apenas ordinário.

Quero ainda evocar o meu querido amigo, também já falecido, Júlio Lourinho, provavelmente o melhor amigo que tive ou alguma vez terei. Em Macau fomos irmãos e era ele quem lia o que eu escrevia e no fim ria a bandeiras despregadas.

Um abraço querido amigo. Na vida, procuraste ser feliz e no preciso momento em que o eras, morreste-nos.

Evoco ainda, o amigo Carlos Januário, companheiro da mesma idade, do berço até aos quarenta e oito anos quando a doença o levou e nos deixou órfãos do carlinhos, companheiro, não só, mas sobretudo do curtir as mágoas leoninas que o Sporting nos ia dando. Um abraço caro carlinhos.

Na agenda da UNICEF, deste ano que tiveram a gentileza de me oferecer, vem uma frase curiosa de Ishamel Beah: “Se estás vivo, há uma forte possibilidade que algo de bom te aconteça.” E é verdade, mas é certo que se estás vivo, a qualquer momento, uma coisa muito má te atinge: a morte.

Enfim, é a condição humana e a ela não podemos escapar.

Estou perante o mais custoso texto que jamais escrevi falar de mim e do que fiz, constrange-me, e pior que isso, acho que a obra não está lá grande coisa. Apelo, pois, à vossa paciência para escutarem alguns minutos de martírio.

Sem querer parecer e muito menos ser pedante, julgo ser comum, nestas circunstâncias, o autor falar um pouco de si, apesar de ser conhecido de ginjeira pela maioria dos presentes, há sempre um segredo mais escondido por revelar.

O meu nome é Jaime Crespo, tenho 54 anos e sou um modesto professor primário

Sou casado e tenho uma filha e um cão.

Nasci na pequena vila do alto Alentejo, Tolosa, no concelho de Nisa, distrito de Portalegre.

Filho de um simples funcionário público e de uma doméstica. Tenho uma irmã mais velha, um cunhado que é quase irmão e uma linda sobrinha.

Da infância guardo três acontecimentos marcantes: um conselho, a doença e a educação.

Quando criança, um militar vagamente familiar, o tenente Valdez ou Maltez, algo assim, após ouvir duas ou três facécias minhas na escola primária, disse-me:

“- Rapaz, tu és esperto. Mas a escola e a vida são como a tropa. Não te atrevas a ser o melhor e livra-te de seres o pior. Fica-te pelo meio, esses estão sempre descansados, os outros, sempre a ser chamados à liça.”

E, toda a minha vida, tenho procurado a discrição dos medianos, mas da mediania não tenho obtido a proclamada doçura, para mim, apenas amargura.

Sempre fora uma criança alegre e saudável, mas a partir dos 3 ou 4 anos, comecei a adoecer com frequência anómala.

Foram a asma, o sarampo, a tosse convulsa, a varicela… uma encefalite aguda que me levou ao internamento na ala de infetocontagiosos, do Curry Cabral. Eu, menino, completamente sozinho, afastado da família, numa cama de hospital.

A minha mãe encontrou maneira de me ver, através da janela do quarto, Por vezes batia levemente no vidro para que eu olhasse e a visse também.

Assim, tão novo, comecei a curtir a solidão.

Nasci no seio de um país católico apostólico romano, no qual Fátima era a única esperança servida a um povo, pobre, inculto e desesperado.

Já não estudei pela cartilha única, com Salazar a cadeira já tinha cumprido o seu dever, Caetano tinha chamado Hermano Saraiva e Veiga Simão que começaram a reformar a educação. Apesar de tudo ainda tive que aprender o catecismo, com um padre gordo, ao qual faltava completamente o dom da palavra. Mas também se chamava Jaime e também era do Sporting, pelo que de vez em quando levava a mão ao bolso da batina e retirava para me oferecer um caramelo espanhol, autêntico luxo naquela época.

E num país católico, a minha família também o era, devotamente.

Hoje, afirmo-me esclarecidamente ateu, mas há um véu católico que ainda tolda o meu discernimento.

Da pequena vila alentejana saí com 26 anos, diretamente para a metrópole cosmopolita de Macau. Pensava ser maturo e saber tudo. Mas não era nada disso, era jovem e que jovem era, tímido e ingénuo, rude, como eu só.

E de uma noite para o dia tive que me fazer homem, entre o mais sórdido que a humanidade é capaz. Uma humanidade que na barbárie, civilizou-se, agora, na civilização cai constantemente na barbárie.

E em Macau, fui sórdido na minha barbárie.

São 27 anos de afastamento da minha aldeia, mais que o tempo que lá vivi. Lá, regresso esporadicamente.

O resto, o que sou agora, foi a vida que fez, mas continuo o mesmo rapazola, tímido, ingénuo e rude que num quente dia de finais de setembro, abandonou a sua aldeia natal.

Posso parecer exuberante, excêntrico, até, mas não passam de camuflagens à minha timidez e ingenuidade.

Apesar deste afastamento temporal e físico à aldeia, tudo o que escrevo ainda anda à volta dela pois a janela pela qual vejo o mundo ainda são aqueles olhos grandes e deslumbrados de menino que eu lá deixei.

Falemos então do livro que agora apresento.

Desde que me conheço, ainda antes da escola e do saber ler e escrever que me recordo com um lápis e papel a rabiscar, primeiro, a escrever depois.

No meu percurso escolar, da escola primária, ciclo de Nisa, escola industrial e magistério primário de Portalegre, acabando na Universidade de Macau, sempre tive professores a dizerem-me “tu escreves bem, dedica-te a isso que vais ver vais fazer vida disso”.

Fazer vida. Foi isso mesmo que tive que fazer, casado e com uma filha fiquei ainda mais agarrado ao ensino.

Trabalhar, trabalhar, trabalhar…

Depois também as mudanças de residência e de escola. De tal maneira que só voltei a lembrar-me da escrita, mais a sério, depois dos 50 anos e de a memória me começar a faltar. E também a vida conhecer agora mais estabilidade.

Pensei “ou é agora ou já não é”.

Então peguei nalguns textos que já tinha escrito, trabalhei-os, escrevi outros de novo e assim cheguei a esta compilação que hoje vos apresento: Texturas Diversas.

Como o título indica, tratam-se de textos diversos, abordando diferentes temáticas.

Variado em temas e linguagem, serviu-me, sobretudo, para criar e apurar o meu estilo e para optar, a partir de agora em diante, pela ficção, uma vez que concluo que esta é mais real que a realidade.

No nosso tempo, o atual, das redes sociais e da comunicação fácil, parece que todos foram abençoados pela luz e querem mostrar ao mundo, a boa nova.

Não eu, uma vez mais fui esquecido por deus e não tenho nenhum segredo a revelar, apenas vulgaridades, sobre gente, como eu, vulgar. E textos dirigidos a pessoas vulgares.

Não é o livro que eu queria, é apenas o livro possível. Dentro das possibilidades que o admirável mundo capitalista permitiu.

Nem sequer é bem um livro, é um livrinho, mas espero que tal como os homens não se medem aos palmos, os livros também não se meçam às páginas.

Por vezes escrevo sobre o meu íntimo, o amor, o ódio, os gostos pela leitura, pelo cinema, pela música, situações prosaicas, textos de teor político… Estes, serão os últimos que produzirei sobre o assunto, já nada tenho a dizer sobre política.

Uso uma frase que pela organização das palavras pode parecer um verso, apresento pequenos textos que poderão parecer poemas, mas sou apenas eu a querer cortar as amarras da prosa.

Poeta não sou nem sei escrever poesia.

Após páginas de calma e bem cuidada linguagem, poderão sentir o murro no estômago de um barbudo palavrão. Também na linguagem procuro o meu registo e ainda sou neófito o suficiente para perder o controlo linguístico.

Certo de que cometi mais erros que acertos e as dúvidas são bem superiores às certezas, com a agravante de nunca, ou quase, encontrar uma certeza para alguma das minhas dúvidas.

De certa maneira, todos desejamos transcender-nos. E não fora esse sentimento, não havia evolução. No entanto, antes de evoluirmos, a cada centímetro dessa evolução, correspondem quilómetros de insucessos e de erros.

Por detrás de cada sucesso há uma enormidade de fracassos a suportá-lo.

Dizem os ingleses “todos apreciam a beleza do cisne deslizando sobre as águas, mas ninguém vê a fealdade das patitas a mexer sob as águas”.

Peço-vos que vejam neste livro uma metáfora do cisne invertido, aqui vão ver as feias patas e terão que imaginar a beleza do cisne.

“Nem tanto à terra, nem tanto ao mar”. Julgo que este meu livro se afere pela bitola da mediania.

É claramente a obra de um principiante em busca da sua voz própria, daí a heterogeneidade de temas abordados e a variação nos tipos e níveis de linguagem utilizados.

É um livro de prosa, procurando a experiência e a inovação.

O que o livro poderá perder em consistência, ganha-o em diversidade.

Poderia ser, mas não é, uma autoajuda para vencer a depressão. Mas foi placebo na minha luta sem tréguas contra a minha depressão.

Debrucemo-nos sobre um provérbio chinês: “não acrescentes pernas à serpente”.

Querem eles dizer com isto que há pessoas demasiado perfeccionistas, de tal modo que acabam por estragar a sua obra. Pelo que devemos ter o tempo exato de parar. E eu parei por aqui.

Preferi a frase crua ao burilamento da linguagem, perco talvez em arte, mas ganho em sinceridade. Não me incomodam os juízos de valor sobre a obra, afetam-me aqueles que são tecidos á priori.

E canta Sérgio Godinho “A vida é feita de pequenos nadas”

No final, apesar de todo o pretensiosismo e arrogância, não passo de um pobre despojado, pedindo por um pouco de ternura, na inóspita terra de ninguém.

Mas quem acaba sempre por ser o juiz de um livro, mesmo para lá dos críticos e teóricos literários são os leitores.

Deixo com todo o gosto e prazer, o livro ao vosso critério.

Agora o tempo do autor passou, estamos já no tempo do leitor. É com prazer que cedo o meu protagonismo a todos vós: leitores.

Pois se ao fim e ao cabo, o veredicto final sobre qualquer obra cabe sempre aos leitores.

Aguardo com humildade, o vosso.

Por favor, elogio-vos a paciência, mas necessito apenas de mais uns momentos para uma efeméride, prometo ser breve.

Estamos no ano da graça (ou desgraça, depende da perspetiva) de 2017. Desde fevereiro, aceitando as balizas colocadas pelos historiadores, que se estão a perfazer cem anos, um século, sobre os acontecimentos que conduziram à Revolução Russa, ou soviética se preferirem.

Mas pelo que vemos, lemos ou ouvimos, parece que nada aconteceu há precisamente cem anos.

Derrubaram o muro de Berlim para construírem outro, invisível, mental, em torno da Revolução dos Sovietes.

Sem desvalorizar o que veio a seguir: Estaline, purgas, o arquipélago de gulags, etc. Os locais para estes debates são outros.

Muito bem, ficámos a saber por que caminhos não trilha o socialismo e que vias não nos dão acesso ao comunismo.

O que me interessa evocar na Revolução Soviética é o seu significado moral, a marca indelével que deixa no campo das mentalidades e das ideias e aquilo que as máquinas de comunicação se esforçam em esconder.

Se nas Revoluções Francesa e Americana, foi a burguesia terratenente e enriquecida, mas arredada do poder político quem se revolta, massacra e aprisiona a velha nobreza, na Revolução Soviética é o povo miúdo, a escória da sociedade quem se ergue dos tugúrios onde estava enfiada e demonstra a todo o mundo que operários e camponeses quando unido sob um mesmo e bem definido objetivo também são capazes de se levantarem do chão e derrubar impérios.

E foi o que aconteceu, na Revolução Soviética, o povo russo ergueu-se como um só e derrubou o império dos Romanov, o que não foi coisa pouca…

Tenho sede de Utopia e é também a Utopia que aqui celebro.

Por vezes, os literatos, do alto da arrogância do seu saber, tomam para com os seus semelhantes, atitudes levianas.

Que aqui, hoje, ninguém sinta leviandade.

E assim termino, uma vez mais as minhas desculpas pela morosidade e moralidade da intervenção, espero que me perdoem.

À minha mãe, o meu mais profundo obrigado e agradeço-lhe com um beijo de ternura e carinho, por ter feito o homem que hoje sou

Muito Obrigado a todos pela atenção e santa paciência com que me ouviram,

Pois é, agora batem palmas, depois de lerem o livro, batem em mim e atiram pedras…



Jaime Crespo


Assim fala José Cruz


Apresentação do livro “texturas diversas”, pelo Dr. José Cruz, Magistrado do Ministério Público

Senhoras e senhores, Boa tarde

Peço a vossa indulgência para o manifesto desalinhavo e pobreza das palavras

que irei proferir, na apresentação de “Texturas Diversas”. É manifesto que o

autor e a obra valem e merecem muito mais.

Permitam o desabafo: Para mim é uma honra e um privilégio participar nesta

sessão.

Autor e obra formam um todo indissociável.

Creio que grande parte dos presentes conhece o Prof. Jaime Crespo.

Nascido em Tolosa, Nisa, distrito de Portalegre. Estudos primários feitos na sua

terra natal, o ciclo em Nisa, ensino unificado, até ao 11º ano, em Portalegre. A

que se segue, igualmente, em Portalegre, o curso do magistério primário,

concluído em 1986.

Mais tarde, em Macau, obteve a licenciatura em estudos portugueses,

sendo distinguido, em 1996, com o prémio Ho Yin, por ter sido o aluno que

obteve as melhores notas. Em 1997 e 1998 completa o curso de componente

de formação em ciências da educação.

Naquele Território, foi o vencedor do prémio literário do concurso “Macau

1999”, atribuído pelo jornal Ponto Final e pela “STDM”.

Exerce há 28 anos a profissão de professor do 1º ciclo do ensino básico.

É casado e tem uma filha.

Quem, como eu, teve e tem a oportunidade de conviver com Jaime

Crespo salienta a sua fina ironia, o seu olhar atento curioso sobre o mundo que

o rodeia, a sua constante interrogação quanto ao profundo sentido do eu e do

outro, as relações do homem com todo o meio social envolvente.

Tudo servido e fundamentado na profunda e sólida cultura de que é

detentor, nada fazendo para a exibir.

Como tereis oportunidade de constatar, o que acabo de afirmar é

evidenciado na obra que ora é publicamente apresentada.

De que trata “Texturas Diversas”?

A contra-capa do livro dá-nos conta do seu conteúdo.

Não vou aqui repetir o que ali foi escrito.

No final de contas, o conteúdo essencial de um livro é constituído por

tudo aquilo que as palavras escritas inculcaram no espírito do leitor.



2

O que ficou no meu espírito, após a leitura da obra, não será

necessariamente o mesmo que ficou ou ficará na mente de outro leitor.

Cada leitor é um mundo, com grelhas diferenciadas de leitura,

resultantes das suas anteriores vivências.

No que me toca: na contra-capa vem referido que “Texturas Diversas”

“é uma colectânea constituída por textos variados quer no assunto, quer no

género, no estilo e no nível de linguagem, de leitura leve e fácil”.

Aparentemente assim é.

Os temas, os assuntos, os géneros são vários, sem se vislumbrar

qualquer fio condutor entre eles.

Por outro lado, efectivamente, a leitura é fácil e leve.

Da impressão que a leitura do livro deixou na minha mente, afigura-se-

me claro que existe um fio condutor (ainda que escondido) entre os vários

temas.

A leitura apesar de leve e fácil remete para conteúdos merecedores de

profunda reflexão.

O difícil é tornar fácil e inteligível, o que não é fácil e intrincado.

Esse um dos outros méritos, que não o menor, da obra.

O título é “Texturas Diversas”.

“Textura é o aspecto de uma superfície ou seja, a "pele" de uma forma,

que permite identificá-la e distingui-la de outras formas. Quando tocamos ou

olhamos para um objeto ou uma superfície sentimos se a sua pele é lisa,

rugosa, macia, áspera ou ondulada. A textura é, por isso, uma sensação visual

ou tocável. Texturas de certos objetos ajudam na sua identificação.”

De que Textura falamos aqui?

Em concreto, na minha óptica, o aspecto da superfície, a “pele” de uma

forma que a identifica e distingue das outras, refere-se a uma concreta e real

personagem.

Personagem entendida como qualquer ser atuante de uma história ou

obra.

A personagem tem um nome: Jaime Crespo!

A colectânea de textos variados, que constituem o livro, tem um fio

condutor, aparentemente escondido.



3

Unindo as pontas desse fio, entre muitas outras possíveis ilações,

concluo que o conjunto de textos que constituem o livro, constituem

apontamentos, subsídios, que integram um potencial esboço geral de uma

personagem, um esquisso de uma biografia.

No caso, personagem e/ou biografia têm um nome: Jaime Crespo.

Porque digo isto?

Vejamos:

“Todos quando nascemos trazemos dentro de nós uma chave, a chave

que nos permite ou não, abrir as portas da existência e é esse o motivo que

nos mantém vivos”, pag. 46.

“Todos encontramos o que procuramos. Nada agrada a todos: este

homem colhe rosas, aquele espinhos”, Gaius Petronius in Satiricon.

Na obra, parece-me evidente, que o autor, utilizando a chave que é

portador, tenta abrir a porta da sua existência, em ordem a encontrar aquilo

que procura.

Na pag. 11, efectua um autorretrato em quatro andamentos.

De seguida, em texto polvilhado por profunda ternura, fala-nos da

estreita ligação que tem com sua mãe- “Naquele dia morri, afogado nas ondas

do mar, dos olhos de minha mãe”, pag. 14.

Em textos subsequentes, Jaime Crespo, diz-nos o que foi e como foi a

fase da sua formação e construção de homem e cidadão.

Dá-nos conta das suas inquietações como homem e como ser envolvido

socialmente.

Nascido em Tolosa, Nisa, conta-nos, ainda que sumariamente, o que ali

foi a sua vida, os amigos que teve, as muitas leituras que o formaram e o

influenciaram; em concreto, saudades de ti, pag. 69, e o escriba, pag. 93.

Fala-nos de uma história de amor ocorrida no Alentejo, pag. 15. Conta-

nos a forma como outros vêm o Alentejo, através da recensão de obras de Rui

Cardoso Martins, pag. 21, e de José Luís Peixoto, pag. 29.

Depois, abrindo o foco da lente com que observa o mundo, fala-nos da

Pátria e do Mundo, do que é ser português em Portugal, no mundo e em

Macau.

“As nossas armas são livros e as munições poemas”, pag 129.



4

“A epopeia do quão custoso é ser português”, pag 29., “num país onde

não se podia voar alto porque tinha um teto demasiado baixo”, pag. 55, em que

“o fado é a filosofia de vida do povo português”, pag. 57; “nós que inventámos o

desenrascanço e a vigarice e espalhámos estas nobres artes pelo mundo, tudo

consentimos, esperávamos o quê?, pag. 56., num país que não tem gerações,

“tem apenas uma amálgama de novos e velhos que se indignam

sossegadamente”, pag. 137.

Aborda também a sua visão da actualidade a nível social e político,

partilha connosco preocupações e desencantos.

Ainda que de forma muito rápida, fála-nos de si, “sei que não sou uma

pessoa fácil, mas também estou longe de ser um homem complicado; pag. 65,

“sou assim um sentimental inveterado”, pag. 69.

Dá-nos conta dos seus gostos literários e cinematográficos.

Tudo isto, não constituirão subsídios caracterizadores de uma

personagem?

Assim sendo, aqui temos um possível esboço de uma biografia

incompleta de Jaime Crespo.

Permitam-me que conclua com uma citação, constante de fls. 37, que

traduz a minha apreciação da obra:

“Confesso, gosto da escrita deste gajo, porra!

texturas diversas – uma resenha


num mundo cujo tempo é medido pelo relógio do “politicamente correto”, jaime crespo ousa um livro ao qual correto não é certamente o adjetivo seu parceiro. “texturas diversas” é uma coletânea constituída por textos variados quer no assunto, quer no género, no estilo e no nível de linguagem. de leitura leve e fácil, a diversidade deste livro leva o leitor de um quase roçar a poesia a uma crítica literária, de uma crónica de costumes ao comentário político, de um texto mais intimista a um texto cosmopolita sobre uma grande cidade, para ainda nos deslumbrar com um conto leve e simples. neste livro, o leitor pode viajar da indignação e raiva incontidas pela situação política até à ternura do amor ou à timidez confessional do intimismo pessoal. da timidez de experimentar uma metáfora, ao deslumbramento da ironia e ao desbragamento do escárnio, este livro vai passando por vários estados de espírito. com uma linguagem bem cuidada, o autor percorre nestes textos todo o espetro da língua, de uma linguagem elevada e cuidada desce, por vezes, ao nível do calão e mesmo do indignado palavrão. estamos, pois, perante um livro erigido na diversidade e é essa diversidade a verdadeira riqueza de “texturas diversas”.