DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES

O que me distingue de um revolucionário, é que este quer mudar o mundo. eu não quero mudar rigorosamente nada, apenas registar a iniquidade humana.

sábado, 19 de julho de 2014

verão frio, verão quente

verão frio, verão quente
vai frio este verão, meus ossos, minha carne, minhas veias, minha pele, meu corpo anseia pelo verão quente.
o coração gela e nada há que o aqueça.
tenho saudades da canícula alentejana, do ar que estala a pele, da sesta fresca, por detrás de grossas paredes de pedras caiadas de branco e debruadas de azul ou amarelo. da sesta que dá argúcia ao pensamento e aclara as ideias. da sede matada em água fresca num cântaro de barro.
verão quente…
no vídeo abaixo, Zeca Afonso pergunta “onde estão as novas gerações? Estão a curtir uma de quê?”. Zeca, sei que foste boa pessoa e dizem-me, os que te conheceram, que ingénuo até. Não viste, ou ignoraste, que este país não tem gerações, tem apenas uma amálgama de novos e velhos que se “indignam sossegados” (Miguel Torga).
este é o fado nosso de cada dia.
não sei se no concerto de onde foi retirado o vídeo, se noutro concerto no coliseu, Zeca Afonso, ao introduzir Fausto em palco, recorda memórias passadas e referia “dos tempos do saudoso prec, do sempre saudoso e nunca desmentido prec”.
há tempos, o camarada Jerónimo também dizia “estamos a viver um novo prec, só que este é ao contrário, é o prec dos ricos”.
o Zeca já lá está, posto em sossego, alguém avise o camarada Jerónimo que nunca houve prec dos pobres, aqui e em toda a parte todos os precs foram dos ricos, senão de uns de outros e na falta de todos lá estava o Estado, esse avô cavernoso, a zelar pelos bens dos ricos.
os pobres, quanto muito, tiveram direito a três dias, mal medidos, de festa na aldeia: fato domingueiro, chapéu ou lenço novos, com missa, procissão, peditório com banda filarmónica, foguetório, copos de vinho e laranjada, jogo do belho na tasca do chico antonho, tourada à vara larga, arraial até de madrugada, atuação do José Cid ou do marco Paulo, a meio espectáculo de fogo preso, cumprimentam-se os compadres, visitam-se as comadres.
mas, finda a ilusão ou bebedeira, o prec continua a ser dos ricos. essa é que é Eça!
Ai que saudades tenho do verão quente…
… e já agora, com um prec a sério, um PREC que fosse do povo, aquele que devia ser “quem mais ordena”.


http://youtu.be/ZUEeBhhuUos

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